Agronegócio
Mercado deve ter superávit na safra 25/26, mas estoques seguem baixos
O mercado internacional de açúcar deve registrar excedente de 1,218 milhão de toneladas na safra 2025/26, segundo o relatório de fevereiro da International Sugar Organization (ISO). O número indica recomposição após o déficit do ciclo anterior, mas não elimina o quadro de aperto estrutural na oferta global.
A projeção representa revisão para baixo em relação à estimativa divulgada em novembro, quando o saldo positivo era calculado em 1,625 milhão de toneladas. Ao mesmo tempo, o déficit de 2024/25 foi ampliado para 3,464 milhões de toneladas, após ajustes no consumo, especialmente nos Estados Unidos. O resultado reforça que a recuperação prevista para 2025/26 ocorre sobre uma base de estoques já pressionada.
A produção mundial é estimada em 181,287 milhões de toneladas, avanço de 2,97% frente à safra anterior. Ainda assim, o volume supera em apenas 192 mil toneladas o registrado em 2023/24, sinalizando expansão moderada.
Do lado da demanda, o consumo deve atingir 180,069 milhões de toneladas, alta marginal de 0,31%. Embora abaixo do recorde histórico de 2023/24, quando o consumo alcançou 181,207 milhões de toneladas, o nível permanece elevado, reduzindo a margem de segurança do sistema global.
As exportações globais estão projetadas em 64,324 milhões de toneladas, levemente inferiores às da safra passada. As importações devem somar 63,222 milhões, resultando em superávit comercial de 1,102 milhão de toneladas — acima do saldo praticamente neutro observado em 2024/25.
Mesmo com o retorno ao excedente, os estoques finais globais permanecem restritos. A relação estoque/consumo caiu para 51,81% e, no cálculo ajustado da ISO — que desconsidera estoques não disponíveis ao mercado — recuou para menos de 42,4%, o patamar mais baixo desde 2010. O indicador é acompanhado de perto por analistas por sinalizar a real capacidade de resposta da oferta diante de choques climáticos ou logísticos.
Na bolsa de Nova York, os fundos mantêm posição vendida relevante em contratos de açúcar bruto na ICE Futures. A posição bruta vendida equivale a 22,6 milhões de toneladas — cerca de 60% do comércio anual global da commodity. A posição líquida vendida soma 13,5 milhões de toneladas, refletindo postura defensiva dos investidores diante da perspectiva de superávit, ainda que modesto.
No segmento de biocombustíveis, a produção global de etanol alcançou 122,9 bilhões de litros em 2025, crescimento de 3,1% sobre o ano anterior, com expectativa de chegar a 127,7 bilhões em 2026. O consumo também avança, projetado em 125,3 bilhões de litros no próximo ano.
Os Estados Unidos lideram o setor, com produção recorde de 62,5 bilhões de litros e exportações históricas de 8,3 bilhões, impulsionadas pela ampla oferta de milho. No Brasil, a produção recuou para 33,2 bilhões de litros em 2025, refletindo maior destinação de cana ao açúcar, mas deve se recuperar para 36,3 bilhões em 2026, acompanhando a melhora da paridade do biocombustível. A Índia ampliou fortemente sua produção, alcançando 10,4 bilhões de litros.
As exportações globais de melaço recuaram 2% em 2025, totalizando 3,58 milhões de toneladas. Com a retirada da taxa de exportação na Índia, o país poderá embarcar até 750 mil toneladas em 2025/26, após dois ciclos de restrições.
Já o mercado de bioplásticos apresenta trajetória de expansão acelerada. A capacidade produtiva global deve saltar de 2,31 milhões de toneladas em 2025 para 4,69 milhões até 2030, impulsionada por metas ambientais na Europa e maior pressão regulatória sobre materiais de origem fóssil.
Apesar do superávit previsto para o açúcar, o cenário permanece sensível. Estoques reduzidos, consumo elevado e forte participação de investidores financeiros mantêm o mercado sujeito a volatilidade, sobretudo em caso de adversidades climáticas nas principais regiões produtoras.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócio
Vacilos do Trump faz Brasil se aproximar da liderança mundial no agro
A distância que durante décadas separou Brasil e Estados Unidos no comércio mundial do agronegócio praticamente desapareceu. Em 2025, os norte-americanos exportaram o equivalente a cerca de R$ 883 bilhões em produtos agrícolas, enquanto as vendas brasileiras chegaram a aproximadamente R$ 871 bilhões. Uma diferença de apenas 1,4% entre dois países que começaram este século em posições muito distantes.
Os dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram mais do que uma aproximação circunstancial. Enquanto o Brasil ampliou produção, produtividade e presença em novos mercados, as exportações norte-americanas cresceram em ritmo bem menor e passaram a enfrentar dificuldades em destinos estratégicos.
Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou R$ 871 bilhões, considerando a conversão dos valores divulgados oficialmente. Foi o maior resultado da série histórica e representou crescimento de 3% sobre o ano anterior.
Os Estados Unidos encerraram o mesmo período com aproximadamente R$ 883 bilhões em exportações agrícolas.
A diferença de cerca de R$ 12 bilhões é pequena diante do tamanho do comércio dos dois países e mostra quanto a posição relativa mudou.
No início dos anos 2000, as exportações agrícolas americanas eram mais de duas vezes e meia superiores às brasileiras. Em apenas cinco anos, enquanto as vendas externas dos Estados Unidos cresceram aproximadamente 14%, as brasileiras avançaram 68%.
O movimento continua em 2026.
Entre janeiro e julho, o agronegócio brasileiro exportou aproximadamente R$ 533 bilhões, novo recorde para o período. Somente em julho foram cerca de R$ 84 bilhões, também a maior marca já registrada para o mês.
Parte da aproximação pode ser explicada por uma diferença estrutural entre os dois concorrentes.
Os Estados Unidos possuem uma fronteira agrícola praticamente consolidada e enfrentam limitações para aumentar significativamente sua área cultivada. Na pecuária bovina, o rebanho norte-americano está próximo dos menores níveis das últimas sete décadas, situação que reduziu a disponibilidade de animais e aumentou a necessidade de importação de carne.
O Brasil ainda possui maior capacidade de crescimento da produção, seja pela incorporação de áreas já abertas, seja principalmente pelo aumento da produtividade e pela possibilidade de realizar duas ou até três safras na mesma área durante o ano.
Essa vantagem aparece com clareza na soja.
Brasil e Estados Unidos estão entre os grandes responsáveis pela oferta mundial da oleaginosa, mas o Brasil assumiu a liderança tanto na produção quanto nas exportações e passou a ocupar uma parcela crescente do mercado chinês.
A China é justamente onde a diferença entre os dois países se tornou mais evidente.
Em 2025, os chineses compraram aproximadamente R$ 285 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro. O país asiático respondeu sozinho por 32,7% de tudo o que o setor exportou.
No comércio agrícola norte-americano ocorreu o movimento contrário.
A China, que durante anos esteve entre os principais compradores dos Estados Unidos, caiu para a sexta posição entre os destinos do agro americano em 2025. As vendas recuaram 66% em apenas um ano, para aproximadamente R$ 43 bilhões.
O próprio USDA associa essa retração às tarifas recíprocas e à redução das compras chinesas de soja norte-americana.
A disputa comercial entre Washington e Pequim acelerou uma mudança que já vinha ocorrendo por razões produtivas. Diante das tarifas impostas aos produtos americanos, importadores chineses aumentaram a procura por fornecedores alternativos, e o Brasil estava em posição privilegiada para atender essa demanda.
O efeito ultrapassou a soja.
O Brasil ampliou participação internacional em carnes, algodão, milho e outros produtos agropecuários e passou a disputar mercados que historicamente tinham forte presença dos Estados Unidos.
Na carne bovina, a inversão é particularmente significativa. O Brasil consolidou-se como maior exportador mundial, enquanto os Estados Unidos, pressionados pela redução de seu rebanho, aumentaram as importações para abastecer o próprio mercado.
Essa situação levou recentemente o governo norte-americano a ampliar em 300 mil toneladas a quantidade de carne bovina magra que poderá entrar no país dentro da cota com tarifa reduzida até o fim deste ano, criando uma oportunidade adicional para fornecedores como o Brasil.
A política comercial adotada pelo governo Donald Trump acrescentou uma nova variável a essa disputa.
As tarifas impostas pelos Estados Unidos atingiram também produtos brasileiros e criaram dificuldades para cadeias que dependem mais diretamente daquele mercado. Café, carnes, suco de laranja e determinados produtos industrializados estão entre os segmentos mais expostos às decisões de Washington.
O efeito sobre o conjunto do agronegócio brasileiro, entretanto, é limitado pela diversificação dos destinos.
Em 2025, os Estados Unidos compraram aproximadamente R$ 59 bilhões em produtos do agro brasileiro, equivalentes a 6,7% das exportações do setor. A China comprou quase cinco vezes esse valor.
Essa diferença ajuda a explicar por que medidas comerciais americanas podem provocar impactos severos em determinadas cadeias sem necessariamente interromper o crescimento das exportações do agronegócio como um todo.
Também mostra por que a abertura de mercados passou a ter peso estratégico para o Brasil. Quanto maior o número de compradores disponíveis para carnes, grãos, fibras, café, frutas e produtos processados, menor a dependência de decisões comerciais tomadas por um único país.
Para o produtor rural, a aproximação dos Estados Unidos no ranking mundial não representa apenas uma disputa estatística. Mercados adicionais significam mais alternativas para escoar a produção e podem aumentar a concorrência entre compradores, especialmente nas cadeias em que o Brasil já possui grande excedente exportável.
Há, porém, um risco nessa trajetória. A crescente concentração das vendas brasileiras na China aumenta a exposição às decisões do país asiático. Quase um terço das receitas do agro brasileiro no exterior depende atualmente daquele mercado.
Por isso, o próximo passo da expansão brasileira passa não apenas por vender mais, mas por diversificar compradores e aumentar o valor agregado dos produtos exportados.
A distância para os Estados Unidos, de qualquer forma, nunca foi tão pequena. Depois de décadas perseguindo o maior exportador agrícola do mundo, o Brasil chega à segunda metade de 2026 em condições de disputar uma posição que, no início deste século, parecia muito distante.
Fonte: Pensar Agro
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