VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Mato Grosso já soma 31 feminicídios em 2026 e violência deixa 41 órfãos
Dados do Observatório Caliandra mostram que quatro mulheres foram assassinadas em agosto; Cuiabá lidera registros no Estado e maioria das vítimas não havia denunciado o agressor
Mato Grosso já contabiliza 31 feminicídios em 2026, segundo dados do Observatório Caliandra, plataforma do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) voltada ao monitoramento da violência contra mulheres. O número ganhou força nas últimas semanas, com quatro assassinatos registrados somente em agosto, e expõe a persistência de uma violência que, em muitos casos, permanece dentro de relações familiares e afetivas até chegar ao desfecho mais grave.
Os dados do painel, atualizado em 16 de agosto, apontam que junho foi o mês mais violento do ano, com sete feminicídios. Março aparece em seguida, com seis casos. Maio registrou quatro mortes, enquanto janeiro e abril tiveram três vítimas cada. Fevereiro e julho contabilizaram duas ocorrências.
O levantamento também revela uma concentração preocupante dos crimes na região metropolitana. Cuiabá lidera o ranking municipal de 2026, com cinco feminicídios, seguida por Várzea Grande e Vila Bela da Santíssima Trindade, com três casos cada. Tangará da Serra e Poconé aparecem com dois registros. Outros 16 municípios contabilizaram uma morte cada.
QUATRO MULHERES MORTAS EM AGOSTO
A sequência de crimes registrada neste mês aumentou a preocupação das autoridades. Entre as vítimas estão Sirley Pereira Gomes, de 42 anos, assassinada em Vila Bela da Santíssima Trindade; Maria Helena do Carmo, de 51 anos, e Cleidineia Eucaris da Costa, de 46, mortas em Poconé; e Ana Cristina Pacheco Matos, de 20 anos, assassinada em Cuiabá.
Os casos mais recentes também reforçam a presença de relações afetivas e familiares no contexto dos crimes. Em diferentes ocorrências, os suspeitos eram maridos, ex-companheiros ou namorados das vítimas.
MAIORIA NÃO HAVIA DENUNCIADO
Um dos dados mais preocupantes do levantamento está relacionado à prevenção. Entre 30 vítimas analisadas, 23 não haviam registrado boletim de ocorrência contra o autor. Em 28 casos, também não havia medida protetiva em vigor.
O dado revela uma das principais dificuldades no enfrentamento ao feminicídio: nem toda situação de violência chega ao conhecimento das autoridades antes que a agressão evolua para um crime fatal.
Isso não significa que a ausência de denúncia seja responsabilidade da vítima. Medo, dependência financeira, ameaças, vínculos familiares, isolamento e o próprio ciclo da violência podem dificultar a busca por ajuda.
VIOLÊNCIA COMEÇA ANTES DO FEMINICÍDIO
O problema é ainda maior quando os números de feminicídio são observados ao lado das estatísticas de violência doméstica.
Levantamento do Observatório Caliandra divulgado em agosto apontou 28.369 mulheres vítimas de violência doméstica e familiar em Mato Grosso em 2026, uma média de aproximadamente 135 registros por dia. Entre as ocorrências, aparecem 9.640 casos de ameaça, 4.993 de lesão corporal, 3.543 de injúria, 2.265 de violência psicológica e 1.815 de difamação.
Ou seja, antes de chegar ao feminicídio, muitas mulheres enfrentam uma sequência de ameaças, agressões físicas, violência psicológica, perseguições e outras formas de abuso.
O próprio MPMT explica que o Observatório Caliandra reúne uma série histórica de feminicídios desde 2019 e acompanha características dos crimes, perfil das vítimas, histórico de violência, medidas protetivas e os chamados órfãos do feminicídio.
41 CRIANÇAS E ADOLESCENTES FICARAM ÓRFÃOS
O impacto da violência ultrapassa a mulher assassinada.
Os feminicídios registrados em Mato Grosso em 2026 já deixaram 41 órfãos, segundo os dados mais recentes divulgados com base no Observatório Caliandra.
O número integra uma realidade ainda maior. Entre 2020 e 2026, pelo menos 512 filhos perderam as mães em decorrência de feminicídios no Estado. Somente em 2022 foram 92 crianças e adolescentes atingidos — o maior número anual da série apresentada pelo Observatório.
Em muitos casos, a tragédia é ainda mais complexa: o homem acusado de matar a mãe também pode ser o pai dos filhos. Assim, crianças e adolescentes podem perder simultaneamente a mãe e a convivência com o pai, em razão da prisão ou responsabilização criminal pelo assassinato.
ARMAS CORTANTES LIDERAM
Os dados de 2026 também revelam como os crimes são praticados.
As armas cortantes ou perfurantes aparecem como principal meio utilizado, responsáveis por 14 das mortes analisadas. Outros seis casos envolveram estrangulamento ou asfixia e seis foram praticados com armas de fogo. Também aparecem instrumentos contundentes, atropelamentos e espancamentos.
Entre as motivações identificadas estão ciúmes, sentimento de posse, machismo, menosprezo ou discriminação contra a mulher, separação ou tentativa de rompimento de relacionamento, além de discussões e problemas financeiros.
CENÁRIO ACENDE ALERTA
O número de 2026 precisa ser analisado também diante do histórico recente do Estado.
Mato Grosso terminou 2025 com 54 feminicídios, segundo o Observatório Caliandra. O maior número da série histórica ocorreu em 2020, com 62 casos.
A realidade mostra que o enfrentamento ao feminicídio não pode começar somente depois do assassinato. Os números de violência doméstica indicam a existência de milhares de situações que chegam às autoridades antes de um possível agravamento.
Por isso, especialistas e órgãos da rede de proteção reforçam a importância da denúncia, do acompanhamento das vítimas, da fiscalização das medidas protetivas e da atuação integrada das forças de segurança, Ministério Público, Judiciário, assistência social e demais serviços públicos.
O Observatório Caliandra mantém os dados atualizados justamente para permitir que pesquisadores, gestores públicos, profissionais da rede de proteção e a sociedade acompanhem a evolução do problema e contribuam para a formulação de políticas de prevenção.
Os números são frios, mas a consequência é humana: 31 mulheres mortas, 41 filhos que perderam as mães somente em 2026 e milhares de registros de violência que mostram que, para muitas mulheres, o perigo começa muito antes do feminicídio.
OBSERVAÇÃO:
Além das imagens de violência e de casos já confirmados, use como reforço para ilustração as imagens dos dados no portal https://caliandra.mpmt.mp.br/dashboard .
Polícia
Mulher condenada por homicídio em Tesouro é presa 14 anos após crime em Campo Grande
Foragida foi localizada pela Polícia Civil de Mato Grosso em Campo Grande (MS) e cumprirá pena de 14 anos em regime fechado
Uma mulher de 49 anos, condenada por homicídio qualificado cometido em Mato Grosso, foi presa pela Polícia Civil na tarde de quinta-feira (13), em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.
A prisão ocorreu após a Polícia Civil identificar o paradeiro da condenada, que tinha um mandado de prisão definitiva expedido pela Vara Única da Comarca de Guiratinga. A sentença já havia transitado em julgado e ainda restavam 14 anos de pena para serem cumpridos em regime fechado.
A localização da mulher foi possível após diligências realizadas por investigadores da Gerência Estadual de Polinter e Capturas e da Delegacia de Guiratinga. Com apoio da 5ª Delegacia de Polícia de Campo Grande, as equipes conseguiram encontrá-la e cumprir a ordem judicial.
O crime ocorreu na madrugada de 18 de agosto de 2012, em uma fazenda localizada no distrito de Batovi, município de Tesouro. A vítima, um homem de 60 anos, foi atacada dentro do quarto da propriedade e morreu após ser atingida por golpes de barra de ferro.
Segundo a investigação conduzida pela Delegacia de Guiratinga, duas mulheres participaram do homicídio. Na época, ambas tinham 35 anos. Uma delas era filha da vítima e a outra, amiga dela, é a mulher presa agora em Campo Grande.
A motivação investigada estava relacionada a interesses financeiros envolvendo a propriedade rural e uma possível herança. Conforme a apuração, a filha teria participado diretamente da execução, enquanto a amiga teria auxiliado no crime e na tentativa de sustentar a versão de que a fazenda havia sido invadida durante um assalto.
Após o assassinato, as envolvidas ainda teriam tentado eliminar vestígios e se desfazer de objetos relacionados ao crime em um rio próximo à propriedade. Durante as diligências realizadas na época, policiais encontraram roupas e outros materiais com possíveis manchas de sangue, que foram encaminhados para perícia.
A investigação também reuniu informações sobre conflitos familiares e questões patrimoniais relacionadas à fazenda, elementos que ajudaram a esclarecer a possível motivação do homicídio.
Após a prisão, a mulher foi encaminhada à 5ª Delegacia de Polícia de Campo Grande, onde foram adotadas as providências necessárias. Ela permanece à disposição da Justiça para o cumprimento da pena.
A prisão faz parte do trabalho da Polícia Civil de Mato Grosso para localizar pessoas condenadas que permanecem foragidas, mesmo após anos da prática dos crimes.
Veja vídeo
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