Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.
CUIABÁ
Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

ARTIGO DE OPINIÃO

Tribunal de Contas mato-grossense: um controle moderno e plural

Publicado em

Em um estado onde as desigualdades socioeconômicas são evidentes e os desafios de gerir políticas públicas efetivas são enormes e recorrentes, os Tribunais de Contas exercem um papel que vai muito além da fiscalização e do julgamento de contas. Essas Cortes são fundamentais para o funcionamento do Estado Democrático de Direito e atuam de forma estratégica para fortalecer a boa governança, promover a transparência e assegurar que as políticas públicas sejam, de fato, efetivas.

Tradicionalmente, os órgãos de controle externo são reconhecidos por sua função fiscalizatória e judicante, voltada ao controle da legalidade, da legitimidade e da eficiência dos atos administrativos. Essa atuação, contudo, não se limita à responsabilização posterior de gestores públicos. Cada vez mais, as Cortes de Contas vêm adotando uma abordagem preventiva e pedagógica, contribuindo para a correção de rumos e para a orientação da gestão pública antes que problemas mais graves se consolidem.

Nesse contexto, o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) implantou mecanismos voltados ao diálogo institucional e à governança colaborativa, com destaque para as Mesas Técnicas. Por meio delas, o Tribunal cria espaços estruturados de interlocução entre órgãos de controle, gestores públicos e especialistas, com o objetivo de enfrentar problemas complexos, construir soluções consensuais e prevenir litígios.

Essas instâncias facilitam o debate e a busca de soluções para questões sensíveis ou de elevado risco financeiro e social, como obras públicas, políticas setoriais, contratos de grande vulto e arranjos institucionais. De forma técnica, transparente e antecipada, antes que tais situações se convertam em irregularidades ou gerem demandas judiciais. Trata-se de um modelo de controle que valoriza a orientação, a cooperação e a segurança jurídica, sem abdicar do rigor técnico e da independência institucional.

Leia Também:  Artigo de opinião - Fabiola Sampaio

Outro avanço relevante no âmbito do TCE-MT foi a criação das comissões permanentes voltadas as áreas sistêmicas e de políticas públicas. Essas comissões são órgãos colegiados de natureza técnica e deliberativa, responsáveis por aprofundar temas estratégicos do controle externo, como saúde, educação e meio ambiente. Sua atuação contribui para orientar gestores públicos, aprimorar as decisões dos relatores e do Plenário e a fortalecer boas práticas de governança pública.

Esses instrumentos reforçam o papel do Tribunal de Contas como indutor de políticas públicas, especialmente quando avalia programas governamentais, analisa resultados e emite recomendações. Ao fazê-lo, o controle externo passa a exercer influência positiva no ciclo das políticas públicas, contribuindo para uma gestão mais eficiente, efetiva e alinhada aos interesses da sociedade.

Outro aspecto relevante, e por vezes, pouco compreendido pelos cidadãos, é a composição mista dos Tribunais de Contas. Esses órgãos, constitucionalmente autônomos e independentes, são formados por cidadãos brasileiros com formações e experiências multidisciplinares, desde que atendidos os requisitos previstos no art. 73, §1º, da Constituição Federal. No âmbito estadual, quatro conselheiros são indicados pela Assembleia Legislativa e três pelo Governador do Estado, sendo dois escolhidos alternadamente entre membros do Ministério Público de Contas e auditores substitutos de conselheiros, e o terceiro de livre escolha do chefe do Poder Executivo.

Com a recente indicação e nomeação do procurador de contas Alisson Carvalho de Alencar para o cargo de conselheiro, o TCE-MT não apenas se aproxima da composição idealizada pelo Constituinte de 1988, como também reforça a qualidade técnica de seu colegiado. O perfil profissional e acadêmico do novo e jovem conselheiro dispensa maiores comentários, destacando-se por sua cortesia, elevada capacidade de comunicação, maturidade intelectual e comportamental, além de competências socioemocionais relevantes ao exercício da função.

Leia Também:  Contribuintes podem trocar pontos do Nota MT por desconto no IPVA 2026

Embora a maioria dos conselheiros seja escolhida entre agentes políticos que, ao longo de suas trajetórias, adquiriram sólidos conhecimentos e experiências em administração pública, a mescla de formações e vivências constituem uma virtude institucional. A diversidade de perfis profissionais amplia a qualidade do debate, aprofunda a análise de casos concretos e favorece a adoção de decisões técnicas adequadas e razoáveis.

Nessa mesma perspectiva e em conformidade com o texto constitucional, a próxima vaga de conselheiro oriunda da quota do Governador deverá ser preenchida por auditor substituto de conselheiro, escolhido a partir de uma lista tríplice. Nesse processo, cabe ao Governador a escolha discricionária entre os três nomes indicados pelo Tribunal, à Assembleia Legislativa a sabatina e aprovação do indicado e, por fim, ao chefe do Executivo a nomeação, seguida da posse pelo Presidente do Tribunal.

Diante da crescente complexidade da administração pública e da maior exigência social por resultados concretos, fortalecer a composição mista dos Tribunais de Contas revela-se essencial para a efetividade do controle externo. Mais do que fiscais da coisa pública, essas instituições consolidam-se como instâncias qualificadas de orientação técnica especializada, diálogo institucional e de proposição de soluções e boas práticas de gestão pública.

Isaías Lopes da Cunha
É auditor substituto de conselheiro no TCE-MT e doutorando em Ciências Contábeis e Administração.

COMENTE ABAIXO:
Advertisement

Artigos

O Brasil Vive uma Crise Moral, Não Apenas Política

Published

on

O Brasil atravessa uma das fases mais delicadas de sua história recente. Embora os debates públicos frequentemente se concentrem em crises políticas e econômicas, há um elemento ainda mais profundo e preocupante: a crescente normalização do inaceitável.

No cotidiano, o cidadão brasileiro tem sido exposto a situações que não deveriam ser vistas como parte da rotina. Não é normal sair de casa sem a certeza de retorno em segurança. Não é normal famílias inteiras conviverem com o medo constante da violência. Tampouco é normal que pequenos empreendedores lutem diariamente para manter seus negócios abertos enquanto enfrentam a criminalidade, a burocracia excessiva e uma carga tributária elevada.

O problema brasileiro, portanto, ultrapassa a esfera administrativa. Trata-se de uma crise institucional e, sobretudo, moral.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o país registrou mais de 46 mil mortes violentas intencionais em 2024. Apesar de variações regionais, o Brasil segue entre os países mais violentos do mundo. Paralelamente, o crime organizado ampliou sua atuação, alcançando fronteiras, rotas de tráfico, presídios e até setores da economia formal.

A sensação de impunidade também se intensifica. Escândalos de corrupção de grande proporção se repetem ao longo dos anos, enquanto grande parte da população percebe que as punições nem sempre alcançam os principais responsáveis.

Leia Também:  É preciso amar e respeitar os idosos. Amanhã serei eu e você!

Investigações conduzidas por órgãos como a Polícia Federal e o Ministério Público Federal revelaram, ao longo da última década, esquemas que movimentaram bilhões de reais em desvios de recursos públicos. Operações de grande impacto, como a Lava Jato, expuseram redes complexas envolvendo agentes públicos, empresários e contratos estatais.

Enquanto isso, o cidadão comum enfrenta hospitais superlotados, escolas com estrutura deficiente, infraestrutura precária e um sentimento crescente de insegurança.

A corrupção, nesse contexto, não pode ser vista apenas como um problema financeiro. Ela representa um mecanismo de erosão social. Cada recurso desviado significa menos investimento em saúde, educação, segurança pública e qualidade de vida. Trata-se de um custo invisível, mas profundamente concreto na vida da população.

Essa deterioração também se reflete na economia. O Brasil possui uma das cargas tributárias mais elevadas entre os países em desenvolvimento. Ainda assim, a contrapartida em serviços públicos não acompanha o volume arrecadado. Segundo dados da Receita Federal, a arrecadação tributária nacional atinge trilhões de reais anualmente, mas a percepção social é de serviços insuficientes e infraestrutura defasada.

Como consequência, cresce a descrença nas instituições. A confiança no Parlamento, no sistema de Justiça e nos órgãos de controle sofre desgaste contínuo. Esse enfraquecimento institucional gera um efeito perigoso: o distanciamento entre sociedade e Estado.

Nesse cenário, o cidadão que trabalha, produz e cumpre suas obrigações passa a ter a sensação de sustentar um sistema que não lhe devolve em eficiência aquilo que lhe cobra em impostos.

Leia Também:  Autismo: Desmistificar para Incluir

Tal crise de confiança representa, talvez, um dos maiores riscos para a estabilidade futura do país.

O Brasil não necessita apenas de discursos ou narrativas políticas. Necessita de fortalecimento institucional, responsabilidade pública e reconstrução de valores essenciais à vida em sociedade.

Isso inclui o enfrentamento sério da corrupção, a valorização das forças de segurança, o investimento consistente em educação e saúde, e a recuperação de princípios básicos como transparência, honestidade e respeito ao dinheiro público.

Nenhuma nação se desestrutura apenas por crises econômicas ou políticas. O enfraquecimento mais profundo ocorre quando a sociedade passa a duvidar do valor da integridade.

Nesse sentido, a reflexão se torna ainda mais relevante quando observada em nível estadual e federal. As decisões tomadas no Parlamento e no Congresso Nacional definem não apenas políticas públicas imediatas, mas também os rumos institucionais do país nas próximas décadas.

Por isso, o acompanhamento da vida política exige atenção contínua da sociedade, com responsabilidade e senso crítico.

Quando valores públicos são corroídos, toda a estrutura social sente os efeitos. E quando a população se distancia da vigilância sobre o poder público, o silêncio também passa a ter consequências.

COMENTE ABAIXO:
Continue Reading

CUIABÁ

MATO GROSSO

POLÍCIA

MAIS LIDAS DA SEMANA