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Agronegócio

Antecipação do acordo reacende debate sobre IGs, salvaguardas e acesso do agro brasileiro

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A União Europeia avalia avançar com a aplicação provisória do acordo comercial com o Mercosul assim que ao menos um dos países do bloco sul-americano concluir a ratificação interna do tratado. A sinalização reflete um interesse político claro em antecipar os efeitos econômicos do pacto, mesmo antes da aprovação definitiva por todos os parlamentos nacionais europeus.

Segundo avaliações feitas em Bruxelas, a Comissão Europeia já dispõe de respaldo institucional e jurídico para colocar partes do acordo em prática de forma provisória. Esse movimento permitiria acelerar benefícios comerciais e estratégicos, ao mesmo tempo em que tende a intensificar a reação de países contrários ao tratado, especialmente aqueles com forte pressão de produtores rurais locais. A resistência, embora conhecida, não tem sido vista como impeditiva para a adoção desse caminho intermediário.

Esse possível avanço dá novo peso ao debate sobre os impactos reais do acordo para o agronegócio, que vão muito além da redução de tarifas. Um dos pontos centrais do tratado está no capítulo de propriedade intelectual, que trata da proteção das Indicações Geográficas (IGs) — certificações que vinculam produtos à sua origem e impedem o uso do nome fora da região reconhecida.

Na prática, produtos com IG não poderão ser imitados ou comercializados com a mesma denominação fora de sua área de origem. Para o Brasil, 37 Indicações Geográficas estão contempladas na lista inicial do acordo. Esses produtos só poderão ser vendidos no mercado europeu se forem efetivamente exportados do Brasil, o que cria uma barreira contra imitações e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de valorização.

Especialistas em desenvolvimento regional e comércio exterior avaliam que essa proteção tende a agregar valor, fortalecer economias locais e ampliar o reconhecimento internacional de produtos brasileiros com forte identidade territorial. Itens como especiarias, cafés especiais, queijos artesanais, bebidas típicas e produtos de origem indígena são apontados como exemplos com potencial de inserção em nichos sofisticados do mercado europeu.

Embora o país já conte com mais de 150 Indicações Geográficas reconhecidas internamente, apenas 37 entraram na lista inicial do acordo devido ao momento em que o tratado foi negociado. O texto prevê, no entanto, a criação de um Subcomitê de Direitos de Propriedade Intelectual, responsável por analisar futuras inclusões. A expectativa é de crescimento contínuo do número de IGs brasileiras, ainda que especialistas alertem para o risco de lentidão burocrática nesse processo.

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Paralelamente à proteção de nomes e origens, outro instrumento ganha protagonismo no cenário internacional: as salvaguardas comerciais. Previstas no Acordo de Salvaguarda da Organização Mundial do Comércio (OMC), em vigor desde 1995, essas medidas permitem que países adotem restrições temporárias — como cotas ou tarifas adicionais — diante de aumentos inesperados de importações que causem ou ameacem causar prejuízos graves à indústria doméstica.

As salvaguardas podem durar até quatro anos, prorrogáveis por mais quatro, e exigem investigação formal conduzida por autoridade nacional. Em tese, não podem discriminar países específicos, mas na prática funcionam como instrumentos de contenção política e econômica, especialmente em setores sensíveis como carnes, grãos e produtos agroindustriais.

Esse mecanismo foi recentemente acionado por grandes importadores globais. Investigações internacionais apontaram crescimento acelerado das importações de carne bovina ao longo dos últimos anos, com efeitos sobre preços internos, estoques e participação de mercado da produção local. Como resultado, foram impostas cotas inferiores aos volumes historicamente exportados e tarifas adicionais expressivas sobre o excedente.

No contexto europeu, o tema das salvaguardas ganhou destaque durante a tramitação do acordo com o Mercosul. O Parlamento Europeu aprovou um dispositivo que facilita a suspensão temporária de tarifas reduzidas caso importações de produtos agrícolas considerados sensíveis, como carne bovina e aves, ultrapassem determinados limites percentuais em médias trienais.

Para analistas do setor, trata-se de uma resposta direta à pressão política de produtores europeus, que exigiram garantias adicionais antes de aceitar o acordo. O impacto potencial não é trivial: estimativas indicam que apenas no segmento de carne bovina, a ativação dessas salvaguardas pode representar a perda de uma parcela relevante do comércio potencial com o bloco europeu.

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DO LADO DE CÁ – Do lado brasileiro, a leitura é de que o acordo já prevê instrumentos de reequilíbrio econômico diante de medidas unilaterais que reduzam o valor das concessões negociadas.

Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende (foto), o uso recorrente de salvaguardas reforça um alerta importante: o acesso a mercados internacionais estará cada vez mais condicionado não apenas à competitividade do produto, mas também a decisões de natureza política.

“Esse movimento exige do produtor e das cadeias produtivas uma leitura mais ampla do comércio internacional. Não se trata apenas de produzir bem e com eficiência. Trata-se de entender regras, timing político e estratégias de proteção de mercado que vêm sendo adotadas por grandes blocos econômicos”, comentou.

O presidente também chamou atenção para os efeitos do acordo no mercado interno, especialmente no uso de denominações protegidas por Indicações Geográficas europeias. “Haverá necessidade de adaptação por parte da indústria e do varejo, com prazos distintos, exceções e regras claras. É um processo que exige informação, planejamento e diálogo com o setor produtivo”, afirma.

Na avaliação de Rezende, a eventual aplicação provisória do acordo UE-Mercosul acelera uma redefinição das regras de acesso, proteção de mercados e uso de nomes comerciais. “O desafio para o agronegócio brasileiro é transformar a proteção das nossas Indicações Geográficas em vantagem competitiva concreta, ao mesmo tempo em que se adapta a um ambiente internacional cada vez mais regulado, político e estratégico”, concluiu.

PARA SABER:

A União Europeia é integrada por 27 países (veja no mapa acima): Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Chéquia (República Checa), Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polónia, Portugal, Roménia e Suécia

Fonte: Pensar Agro

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Etanol de milho cresce 50% e leva agroindústria novo patamar

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A produção de etanol de milho deverá superar pela primeira vez a marca de 1 bilhão de litros em Goiás. A estimativa para a safra 2026/27 é de 1,18 bilhão de litros, crescimento de 50,6% em relação aos 782,6 milhões de litros produzidos no ciclo anterior.

Os números constam do segundo levantamento da safra de cana-de-açúcar e biocombustíveis, divulgado em agosto pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em apenas uma temporada, a indústria goiana deverá acrescentar cerca de 396 milhões de litros à produção de etanol de milho.

A expansão muda o papel do cereal na economia estadual. Além de abastecer granjas, confinamentos, fábricas de ração e o mercado externo, uma parcela crescente da safra passa a ser processada dentro de Goiás. Com isso, o milho deixa de ser comercializado apenas como matéria-prima e passa a gerar combustível, óleo vegetal e produtos destinados à alimentação animal.

Somadas as produções provenientes da cana-de-açúcar e do milho, Goiás poderá fabricar aproximadamente 5,81 bilhões de litros de etanol na safra 2026/27. O volume representa crescimento próximo de 9% em relação ao ciclo anterior.

Quase todo esse aumento virá do milho. A produção de etanol de cana deverá avançar apenas 1,7%, de 4,55 bilhões para 4,63 bilhões de litros. A participação do milho no total do biocombustível produzido no Estado deverá subir de aproximadamente 15% para mais de 20% em apenas um ano.

Para o produtor rural, a ampliação da indústria representa a entrada de um comprador capaz de demandar grandes volumes durante todo o ano. O milho pode ser armazenado e processado continuamente, o que reduz a concentração das vendas no período da colheita e cria novas possibilidades de contratos diretamente com as usinas.

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A demanda local também reduz parte da dependência das exportações e do transporte do grão por longas distâncias. Em determinadas regiões, o custo do frete até os portos compromete uma parcela importante do preço recebido pelo produtor. A presença de unidades industriais mais próximas pode melhorar a concorrência pela produção e fortalecer os preços regionais.

O avanço ocorre em um Estado que deverá colher perto de 12 milhões de toneladas de milho na safra 2025/26. Goiás ocupa a terceira posição nacional na produção do cereal, segundo a Conab, e conta com uma oferta suficiente para atender simultaneamente às cadeias de proteína animal, à indústria de biocombustíveis e a outros compradores.

Considerando um rendimento industrial entre 420 e 460 litros por tonelada, a produção projetada de etanol poderá consumir aproximadamente 2,6 milhões a 2,8 milhões de toneladas de milho. O volume corresponderia a mais de um quinto da atual safra estadual, embora o consumo efetivo dependa da tecnologia utilizada pelas usinas e do período de operação das unidades.

A transformação do grão não termina no combustível. O processamento gera grãos secos de destilaria, conhecidos pela sigla em inglês DDGS, um ingrediente rico em proteína utilizado na fabricação de rações. O produto pode substituir parte do milho e do farelo de soja na alimentação de bovinos, aves e suínos.

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Essa integração é particularmente importante para Goiás, que possui cadeias consolidadas de produção de carnes e leite. A indústria retira o amido do milho para produzir etanol, mas preserva e concentra nutrientes que retornam ao campo na forma de alimento para os animais.

A produção de etanol de milho no Estado era de 190,8 milhões de litros na safra 2018/19. Com a projeção atual, o volume terá crescido mais de seis vezes em oito safras. O avanço coloca Goiás entre os principais polos nacionais do segmento, ao lado de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

No país, a Conab estima produção recorde de 11,91 bilhões de litros de etanol de milho em 2026/27, alta de 17%. Goiás deverá responder por aproximadamente 10% desse total e crescer em ritmo quase três vezes superior ao da média nacional.

A expansão cria oportunidades, mas também exige atenção do produtor. O aumento da capacidade industrial não garante, sozinho, preços elevados para o cereal. O resultado dependerá da distância entre as fazendas e as usinas, dos custos de transporte, da oferta regional e das condições previstas nos contratos.

Ainda assim, a entrada de uma demanda permanente fortalece o mercado goiano de milho e amplia a agregação de valor dentro do Estado. Em vez de transportar apenas o grão, Goiás passa a vender combustível, óleo e nutrição animal, multiplicando os efeitos da produção agrícola sobre a indústria, os serviços e a geração de renda.

Fonte: Pensar Agro

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